03/10/2005

A vacina contra os incêndios ou o A4 aguenta tudo

Em relação às origens dos incêndios, já verti anteriormente uns caracteres. Vou agora debruçar-me sobre as formas de minorar as consequências.

Nunca em Portugal houve tanta floresta quanto hoje.

É sabido que, desde os descobrimentos, se operou uma razia tal à nossa floresta que só recentemente (últimas décadas) foi compensada.

A floresta de hoje não é igual à floresta anterior aos descobrimentos: é muito mais densa porque é maioritariamente composta por pinheiro e eucalipto.

A pinheiro e o eucalipto são excelentes combustíveis. Quando começam a arder, ninguém lhes pode fazer frente.

Há ainda áreas (ou havia, no Algarve) onde o sobreiro é dominante. Mas aí, a praga ecologista tratou de criar as condições que garantissem que o fogo se viesse a propagar de forma incontrolável: conseguiu obter legislação que proibisse não só a limpeza dos terrenos, como a limpeza dos matagais que sempre se formam nas margens dos cursos de água (por pequenos que sejam).

Os cursos de água progridem, naturalmente, nas zonas mais baixas do terreno. Conhecendo-se a facilidade com que um incêndio de propaga encosta acima, a presença de chamas nos matagais dos cursos de água garante a proliferação das chamas pelos vales, como um rastilho de pólvora, e a respectiva propagação às encostas, exactamente a forma pela qual mais eficientemente tudo arde.

Há-de sempre haver incêndios. É disparatado pensar que se pode, em absoluto, evitar o seu aparecimento. A única coisa que há a fazer é criar mecanismos para evitar que eles se tornem incontroláveis.

Não vale a pena gritar por helicópteros e por outros equipamentos, se, de cada vez que se acrescentem meios, se descurar, ainda mais, a organização da floresta. Os meios aumentam na proporção do caos florestal, e ficamos na mesma.

Parece óbvio a toda a gente, que algumas coisas relativamente simples baixariam drasticamente não o perigo de incêndio, como muitos erradamente afirmam, mas a perigosidade do incêndio.

O perigo de incêndio diz respeito à possibilidade, ou não, da sua eclosão. A perigosidade diz respeito às consequências caso o incêndio se instale.

O segundo pode fazer diminuir o primeiro: a redução substancial das consequências de um incêndio é um factor desmobilizante da mão criminosa.

Voltando à prevenção, e deixando de lado os meios, porque, suponho, já teremos, média geral, mais que suficiente (alugados ou não), há duas coisas que parecem óbvias: é preciso manter a floresta limpa, e é preciso dividir a floresta de forma que vastas áreas sem arvoredo permitam que um incêndio numa das zonas se extinga quase por si próprio, ou possa ser eficientemente combatido.

A limpeza da floresta é essencial para que seja possível atravessá-la, mas não chega. Ela arde na mesma.

A limpeza é necessária, por um lado porque há espécies que crescem espontaneamente, por outro porque as operações de abate deixam no terreno altíssimas quantidades de matéria combustível.

O problema é que a limpeza tem enormes custos que ninguém parece querer suportar.

Em tempos que já lá vão, os rebanhos tinham um papel preponderante nesta matéria. Já vi, perante meus olhos, zonas perfeitamente transitáveis sem qualquer manutenção aparente, tornarem-se impenetráveis matagais simplesmente porque o pastor lá da zona se reformou.

Surge então o papel do estado que, entre nós, legisla quase sempre para dar a impressão que o “preto no branco”, si por só, resolve alguma coisa. Os governos e a Assembleia da República ainda não legislaram no sentido da obrigatoriedade de chover nas datas adequadas, mas já faltou mais.

Como diz um homem que conheço, o A4 aguenta tudo, mas a realidade está-se nas tintas para o que lá coloquemos.

Só será possível conter os incêndios (evitar é outra coisa) se forem encontrados métodos baratos de manter as florestas limpas e se se encontrarem formas de compensar os agricultores que se vejam inibidos de plantar floresta nas suas propriedade em virtude da criação de zonas tampão desflorestadas. E esse esforço não pode ser só dos governos ou das autarquias: tem que ser de toda a população, ao nível das juntas de freguesia. De outra forma continuaremos a ver arder e a culpar os governos.

Repare-se que a generalidade da população rural nem sabe o que fazer em caso de incêndio. Não tem pás, máscaras, botas, coisas simples que lhes permitissem sequer fazer face a um peque o incêndio.

Na perspectiva em que as coisas se encontram, não é mau de todo que o território vá ardendo. Caso contrário, o volume e o caos florestal tomariam tais proporções que o primeiro incêndio reduziria a cinzas a totalidade do território nacional.

Enquanto não formos capazes de organizar a floresta (organizar-nos a nós próprios), resta-nos que as vastas áreas que vão ardendo sirvam de vacina para os próximos anos e permitam que as áreas já ardidas funcionem como tampão para os próximos fogos.

Quando não respeitamos a natureza, ela encontra os seus próprios caminhos, com ou sem a nossa colaboração – a nosso contento ou não.

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